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A experiência de Comunidade de Aprendizagem em uma escola quilombola

21/06/2018

A experiência de Comunidade de Aprendizagem em uma escola quilombola

Crianças, equipe escolar, familiares e pessoas da comunidade quilombola de Segredo (Souto Soares/BA) falam sobre o cotidiano da escola Rui Barbosa

“Quando nós chegamos por aqui as casinhas eram poucas”, conta Dona Guilhermina, com a testa franzida e os ouvidos atentos a cada pergunta. Com seus 102 anos, a moradora mais antiga da comunidade de Segredo traz no semblante e na memória as marcas do passado. Foi em 1933 a primeira vez que pisou naquelas terras. Se fixaram na parte do Riacho. “Só tinha o Riacho e umas três ou quatro casas lá embaixo”, recorda. Naquele tempo, não poderia imaginar ver sua história verdadeira ensinada em uma escola quilombola, valorizada pelas crianças da comunidade.

Ao centro, sentada, dona Guilhermina, em sua residência ao lado da filha dona Alice (à esq.) e seu José (à dir.)

Os direitos quilombolas têm uma trajetória recente e ainda frágil no Brasil. O decreto que permite a regulamentação dos territórios quilombolas é de 2003. De lá para cá, cerca de 3 mil comunidades foram reconhecidas, mas somente 9% delas conquistaram o título coletivo da terra, garantia importante para que a comunidade permaneça vivendo em seu território.

Após anos apartados de sua história, a comunidade de Segredo foi reconhecida como remanescente quilombola em 2007. O processo para certificação impulsionou a formação da associação local e sua efetivação abriu caminho para que a população acessasse direitos básicos negados ao longo de tantos anos.

“O que mais ganhamos foi a promoção da nossa autoestima”, afirma Rita da Silva Xavier, natural de Segredo, pedagoga e pós-graduada em História da África. Rita lecionou por 27 anos na Escola Municipal Rui Barbosa e se orgulha das transformações que ajudou a promover ao descobrir na Educação o poder de ressignificar o imaginário.

Trabalhos feitos por alunos do 6º ao 9º ano destacam elementos da cultura africana

Após 300 anos de escravidão e 115 de invisibilidade, o reconhecimento foi um primeiro passo para que as populações negras pudessem finalmente romper a visão hegemônica da história do Brasil. “Professores, direção e estudiosos da comunidade começaram um estudo mais sistemático para superar a narrativa única, do negro que veio da África para ser escravo, e buscar o outro lado da história do negro e suas contribuições”, diz a pedagoga.

 

Escola e comunidade

Na experiência da Rui Barbosa, escola e comunidade não têm limites tão demarcados. Espacialmente, escola e território estão integrados: para acessar o refeitório, por exemplo, as crianças atravessam a rua da comunidade para o outro lado. Com o território integrado, as parcerias com moradores e familiares permeiam com mais fluidez o ambiente escolar.

A proposta de Comunidade de Aprendizagem (CA) chegou à escola Rui Barbosa há pouco mais de dois anos, fruto de uma parceria com o Instituto Natura e o Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (ICEP). Para a equipe gestora, hoje seu ponto forte é a participação de voluntários.

“A comunidade sempre esteve presente na escola, mas agora temos descoberto formas de transformar presença em participação”, afirma o diretor Cleber Araújo, que é líder comunitário local e tem uma longa trajetória dentro da instituição: ele se formou ali, como grande parte dos moradores de Segredo, e antes de assumir a direção foi funcionário, professor e coordenador pedagógico.

Encontro da etapa de Sensibilização

“Eu, como mãe, sempre participei de tudo o que podia. Mas depois do Comunidade de Aprendizagem eu vejo a diferença. Hoje sou uma integrante da Comissão Mista Gestora, participo das tomadas de decisão e acho muito importante que isso seja feito em parceria”. O relato de Robervânia Araújo dos Santos, mãe da pequena Nicoly (7 anos), junta-se a outras vozes de voluntários e familiares que se sentem parte da escola.

Um deles é Moacir Martins do Carmo. Ele também foi aluno da escola e agora volta para atuar como voluntário por meio do projeto. “Eu estudei na Rui Barbosa na década de 80, formei meus quatro filhos aqui, dois deles já casados, e continuo participando porque a gente quer que a escola cresça”, diz. Moacir é voluntário dos Grupos Interativos, colaborou com a confecção de peças para a brinquedoteca, já acompanhou ações dos projetos de leitura e avisa: “quero participar cada vez mais!”

Outro exemplo conhecido é o de Robson Rodrigues de Araújo, professor voluntário de circo. Nascido em Segredo, Robson teve seu primeiro contato com o circo vendendo água de coco em uma escola de circo do vale do Capão, na Chapada Diamantina. Lá, ele se apaixonou pelas artes circenses e se envolveu completamente.

O voluntário Robson Rodrigues Araújo durante aula de circo

Após 12 anos de trabalho na área, Robson retornou à comunidade para desenvolver projetos de arte com crianças e adolescentes, e a escola Rui Barbosa teve a sorte de recebê-lo como oficineiro, na época do programa Mais Educação. Em 2016, a iniciativa foi descontinuada pelo governo federal, mas Robson prosseguiu como voluntário junto de Comunidade de Aprendizagem.

“Como somos uma comunidade quilombola, a questão cultural está no sangue das pessoas. As crianças têm um prazer de estar em cena, de brincar capoeira, de fazer teatro, de bater uma percussão”, afirma o professor. Além das aulas de circo, ele integra as Comissões Mistas de Cultura e Gestora, e considera fundamental que a escola mantenha seu projeto pedagógico integrado às linguagens artísticas e culturais. "Se a criança não participa das atividades culturais ela fica pra trás nas questões sociais”, acredita.

Estudantes da escola Rui Barbosa durante aulas de circo

Hoje, a comunidade adentra a sala de aula, contribui para o processo de aprendizagem dos alunos, participa de forma efetiva das tomadas de decisão e atua em conjunto com a equipe gestora na resolução de conflitos, por meio da Comissão Mista de Convivência, que tem sua atuação orientada pelo Modelo Dialógico de Prevenção e Resolução de Conflitos.

A Comissão foi criada no final de 2017, movida por Sonhos de familiares e estudantes que denunciavam situações de bullying e preconceito. Atualmente, ela é considerada a comissão mais atuante do projeto. Segundo Cleber, dividir estas questões com alunos e a comunidade local por meio do Diálogo Igualitário tem facilitado o trabalho da própria gestão.

Reunião da equipe gestora

“Antes da Transformação, ficava tudo na mão da direção e muitas vezes as decisões unilaterais complicavam porque não eram compreendidas pelo grupo todo. Percebemos que é muito mais viável tomar as decisões no coletivo, e as pessoas estão mais satisfeitas porque têm voz e vez no diálogo”, afirma o diretor.

“A gente sabia que era importante trazer a comunidade, mas como propor este encontro de forma organizada, com um objetivo maior? As Atuações Educativas de Êxito vêm nos ensinando a fazer isso”, diz a coordenadora pedagógica do Infantil e do Fundamental 1, Adriana Rocha, para quem as AEEs ajudaram a mobilizar inclusive quem vem de mais longe, efetivando a participação das comunidades vizinhas. “Hoje a distância não é empecilho”, pontua.

Etapa de Sensibilização na escola Rui Barbosa

“Escola e comunidade precisam estar e caminhar juntas. As duas se complementam, aprendem e se formam uma com a outra. Esta concepção é a que sempre tivemos e necessitamos, mas o projeto veio mostrar como fazer e tornar possível”, sintetiza Edilucia Araújo, coordenadora pedagógica do Fundamental 2.

Para Claudia Rocha, coordenadora pedagógica territorial do ICEP e formadora certificada em CA, a experiência da escola Rui Barbosa nos ajuda a quebrar o mito de que os pais não querem participar do projeto educativo. Ela foi uma das formadoras responsáveis por conduzir a etapa de Sensibilização na escola e conta que na primeira reunião que fizeram com os pais a maioria dos participantes se dispôs a atuar como voluntário das AEEs. “Quando a comunidade tem clareza do seu papel ela se mobiliza para participar”, conclui.

 

Aprender com o outro

Pesquisar as histórias contadas pelos mais velhos é parte do currículo da escola quilombola Rui Barbosa. Todo ano, as crianças são estimuladas a ouvir histórias contadas pelos avós ou moradores mais antigos da comunidade, registrá-las e recontá-las do seu próprio modo.

Depois, elas circulam praças e visitam casas de Segredo e de outras localidades para mostrar o que aprenderam. Durante os encontros promovidos no território, os estudantes interpretam também obras da literatura clássica ou contemporânea, ajudando a levar a experiência da leitura para lugares onde o livro não chegou.

Além de expandir as atividades educativas para fora da escola, a instituição busca trazer para dentro os saberes da comunidade. “Nós comemoramos o dia dos avós com um chá literário onde os convidamos para contar histórias na escola”, diz a coordenadora Adriana.

É neste contexto que a prática das Atuações Educativas trazidas por Comunidade de Aprendizagem acontece. Para driblar a falta de livros, organizam o Balaio Literário, estimulando o rodízio de títulos entre os alunos. Para suprir a ausência de uma biblioteca municipal, improvisam a Biblioteca de Classe: “a gente cria uma biblioteca na sala de aula e trabalha com a turma todo o processo: o que é uma biblioteca, como ela funciona, catalogamos os livros, organizamos os empréstimos”, relata Flávia Araújo de Souza Vieira, professora das turmas do 4º e 5º ano.

Tertúlia com professora Flávia e estudantes do 5º ano

Flávia afirma que a articulação das diferentes ações voltadas à leitura tem dado bons resultados. “Com as Tertúlias Literárias, o Balaio Literário e a Biblioteca de Classe, os alunos aprendem a compartilhar, a ouvir o outro, a respeitar as diferenças e, principalmente, a ler mais, e ler com gosto. Ano passado, no 5o ano, registramos mais de 1300 empréstimos de livros”, comemora.

Julio Cezar Rosa de Jesus (10 anos), aluno do 5º ano, descobriu recentemente o prazer da leitura depois de participar das Tertúlias. Hellem Kauane Souza Araújo (12 anos), estudante do 7º ano, sempre gostou de ler, mas diz se sentir mais motivada ao compartilhar a leitura com seus amigos e ter seu saber reconhecido por eles. “Quando uma pessoa se inscreve para comentar a fala da gente, temos a sensação de que ela gostou da nossa escolha, que quer acrescentar alguma coisa, e isso é muito legal”, afirma.

Para Hellen, as leituras compartilhadas têm aproximado mais a turma e ajudado os alunos a vencer as vergonhas e se soltar cada vez mais. “Na Tertúlia, cada fala é respeitada e ninguém critica dizendo se está certo ou errado”, explica ao dizer porque os alunos se sentem mais à vontade para expor seus pensamentos.

Promover o Diálogo Igualitário, multiplicar as interações e diversificar as oportunidades de aprendizagem valorizando a Inteligência Cultural são objetivos fundamentais da proposta de Comunidade de Aprendizagem. Na escola Rui Barbosa, a possibilidade de aprender mais uns com os outros é a principal mudança sentida por alunos e alunas após a implementação das práticas de CA.

“Acho que aprendemos mais quando ouvimos a opinião do outro”, reflete Julio Cezar. Maria Ester Araújo Vieira (10 anos), sua colega de classe, também acredita que aprender em grupo funciona melhor: “é gostoso estudar nos Grupos Interativos porque a gente pode pensar junto com o grupo. Você não precisa quebrar a cabeça sozinho com os deveres”, afirma.

Para eles, além da ajuda entre os colegas, a presença de voluntários também tem contribuído para que a turma aprenda mais: “tem gente que acha que só os professores podem ensinar, mas outras pessoas podem saber de coisas que não aprendemos na escola. Não aprendemos só com o professor”, acredita Maria Ester.

Na avaliação dos professores, as AEEs têm contribuído para promover uma relação mais respeitosa entre todos. Desde o princípio do projeto, Flávia é uma entusiasta da participação dos familiares dentro da sala de aula. “Eu sou uma professora que faço o possível para os pais estarem dentro da sala de aula. Quanto mais puder estar, melhor. Para acompanhar, para conhecer mais, para ajudar a gente. Quando os familiares adentram a sala de aula eles também aprendem mais”, defende.

Seja nas leituras compartilhadas possibilitadas pelas Tertúlias, seja na dinâmica proposta por Grupos Interativos, a impressão geral dos alunos é: “agora aprendemos mais”. E é nesse sentido que Kaylane Borges Pereira (15 anos), estudante do 9º ano para quem o trabalho em grupo desperta a curiosidade e a vontade de aprender, reivindica: “eu queria que a gente trabalhasse cada vez mais com os Grupos Interativos”.

Numa comunidade onde a terra é coletiva, educadores, crianças e familiares descobrem que podem sonhar juntos a escola que desejam. Para a equipe gestora, o desafio de integrar a comunidade, com suas pessoas e instituições, suas origens e suas lutas, às decisões e ao processo de ensino e aprendizagem tem sido uma experiência fortalecedora. Agora, para prosseguir com as ações do projeto, se planejam para ampliar a formação em EAD e buscar apoio para realização dos Sonhos, sempre respeitando o ritmo das transformações.

Como afirma um documento coletivo produzido pela escola “o caminhar é lento, o desejo de seguir em frente é forte e a certeza do sucesso de todos e de cada um é real”.

 

Por: Bárbara Batista

 

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