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Em Mogi Mirim (SP), tertúlias pedagógicas são adotadas como estratégia de formação de professores

01/03/2018

Em Mogi Mirim (SP), tertúlias pedagógicas são adotadas como estratégia de formação de professores

Ampliada para toda a rede de educação, prática tem ajudado a promover relações mais colaborativas e democráticas no ambiente escolar

Investir na formação permanente dos professores é fundamental para o sucesso de qualquer projeto educativo. Uma nova maneira de conceber a escola, onde todos se disponham a sentar, escutar, debater e construir junto, requer atenção redobrada. No município de Mogi Mirim (SP), a Secretaria de Educação tem proposto, desde 2017, um tipo de formação baseado no diálogo igualitário entre professores e equipe diretiva, e na necessária interlocução entre a teoria e a prática docente.

Ana Cristina Gazotto, funcionária da secretaria e formadora certificada pelo projeto Comunidade de Aprendizagem, foi responsável por incluir, no ano passado, a prática da Tertúlia Dialógica Pedagógica nos encontros de formação continuada e por estendê-los, dessa forma, a toda rede de educação, do Infantil ao Fundamental 2.

“Para alcançar todo mundo e chegar ao aluno, eu organizo a cada 15 dias um encontro com os coordenadores pedagógicos e uma vez por mês com os diretores, e desenvolvo com eles a tertúlia, nos moldes da Comunidade de Aprendizagem. Destas reuniões, saem as pautas dos HTPCs, realizados nas escolas a cada 15 dias. Então, em uma semana o gestor escolar vivencia a tertúlia, enquanto participante do grupo. Na outra, ele modera a tertúlia na sua escola, durante a formação de professores. Foi neste movimento que conseguimos ampliar as tertúlias para a rede toda”, conta Cristina.

Incluída inicialmente como mais uma modalidade de leitura, a Tertúlia Pedagógica tornou-se método formativo permanente em Mogi. Atualmente, as 23 escolas da rede realizam esta Atuação Educativa de Êxito (AEE) nos horários de trabalho pedagógico coletivo (HTPCs). Delas, sete já são Comunidade de Aprendizagem, e puderam experimentar na formação de professores estratégias que já utilizavam ou que passaram a utilizar com seus alunos.

“Trazer para a formação, de modo institucional, a Tertúlia Pedagógica, fez com que a gente tivesse a oportunidade de implementá-la na nossa escola, pois criou um espaço pedagógico para isso”, afirma a vice-diretora da EMEB Professora Ana Isabel da Costa Ferreira, Elaine Depiere.

Segundo Tatiana Aparecida Vicente, professora de português na EMEB Professor Jorge Bertolaso Stella, para uma Tertúlia dar certo é importante, em primeiro lugar, que o educador entenda sua concepção: “a tertúlia é uma troca de opiniões, impressões e informações em que não há uma única resposta certa, e onde poder falar e saber ouvir são princípios fundamentais”, explica.

A professora utiliza o método com seus alunos do oitavo e do nono ano. Desde 2015, quando a prática foi adotada pela escola, cada turma realiza a leitura dialógica de pelo menos um clássico por ano. “Agora, antes de trabalhar com a turma, a gente tem a oportunidade de experimentar e aprofundar a tertúlia na formação. Assim, podemos enxergar os pontos interessantes e planejar melhor o trabalho com os alunos”, diz Tatiana.

 

Formação Pedagógica Dialógica

Planejar coletivamente, discutir junto as dificuldades, dividir estratégias, construir ou rever metodologias, experimentar, testar e aprender com os erros. Tudo isso tem sido proporcionado em Mogi Mirim por um processo formativo que chamamos de Formação Pedagógica Dialógica.

Adotada pela Comunidade de Aprendizagem, este tipo de formação propõe um processo de Aprendizagem Dialógica onde professores estudam juntos com o objetivo de conhecer, debater e se atualizar sobre teorias e pesquisas de Educação relevantes para sua atuação, sempre aliando o embasamento teórico à realidade escolar.

“Enquanto Secretaria, a gente não abre mão de que o HTPC seja uma Formação Pedagógica Dialógica, um momento para os professores sentarem, se debruçarem sobre a teoria, refletirem a prática, fazerem esta ponte, esta ligação. Esta é uma concepção que a gente já tinha aqui em Mogi e que a Comunidade de Aprendizagem veio a agregar”, pontua Cristina.

Uma das formas de organizar estes encontros formativos é a Tertúlia Dialógica Pedagógica. Nela, o conhecimento teórico é amparado nas vivências trazidas pelos diversos profissionais que atuam na escola, em uma roda que preza pelo diálogo igualitário, pelo encontro de práticas, pelo debate de ideias e pela revisão do que vem sendo feito, sempre que necessário.

Conheça mais realizando o módulo de Formação Pedagógica Dialógica do nosso curso de Educação a Distância.

 

Diálogo igualitário

A leitura não vem da autoridade do professor ou do currículo, mas sim de sentimentos humanos muito intensos. Não era para ser individualmente estudada, mas, sim, coletivamente compartilhada

Ramón Flecha

Na Formação Pedagógica Dialógica aprender é um processo coletivo, que acontece na interação e se potencializa no diálogo igualitário. Para Cristina, a Tertúlia é o lugar privilegiado onde o diálogo igualitário acontece. “Ela permite que todo mundo participe, não só quem tem algum conhecimento prévio ou aprofundado sobre o tema. Na tertúlia, cada um pode compartilhar impressões sobre a leitura e construir este sentido coletivo sobre o texto”.

Aos poucos, este tipo de relação mais horizontal proposto no exercício das Tertúlias vai alterando outras relações estabelecidas no interior da escola. Para a vice-diretora Elaine Depiere, incluir os professores neste tipo de formação vai fazendo com que a escola viva a Comunidade de Aprendizagem. Ela conta que na escola Ana Isabel problemas que antes eram tratados de forma segmentada começaram a ganhar soluções coletivas.

“Antes, se algum problema acontecesse no recreio e um aluno procurasse a ajuda de um professor, este geralmente remetia a questão ao inspetor de alunos. Hoje em dia, é comum que professores, alunos e inspetores sentem para resolverem juntos”, exemplifica.

No caso de Mogi Mirim, a Secretaria de Educação tem investido para que o diálogo igualitário vivido nas formações, extrapole o espaço da Tertúlia e seja incorporado no cotidiano das escolas. Segundo relata Cristina, a intenção é que a formação estimule processos de transformação nestas escolas, criando ambientes mais colaborativos e democráticos. “A vantagem das tertúlias é que ela é uma proposta acessível e viável para qualquer grupo. Ela é um ótimo início para que um processo de transformação maior da escola aconteça”, acredita.

 

Como organizar uma Tertúlia Dialógica Pedagógica?

 O que é

Na Tertúlia Dialógica Pedagógica educadores se reúnem para discutir obras clássicas da Educação e estudam conjuntamente exercitando o diálogo igualitário, onde impressões, opiniões e dúvidas são compartilhadas a partir das bases científicas estudadas, mas pautadas na prática e nos saberes de cada profissional.

 Quando fazer

Em Mogi Mirim, por exemplo, as tertúlias pedagógicas acontecem quinzenalmente dentro dos HTPCs, mas o mais importante é aliar esta prática à realidade e organizar a realização dos encontros de acordo com a disponibilidade de cada escola e de seus educadores.

 Onde fazer

O processo de formação proposto pela Formação Pedagógica Dialógica deve ter como referência fundamental o saber docente, seu reconhecimento e sua valorização. Neste processo, a escola é o lugar privilegiado para a realização dos encontros, pois ela favorece o diálogo com a prática docente.

 Como organizar

Nas Tertúlias Pedagógicas o estudo deve ser conduzido pela equipe da própria escola, o que é importante para que se crie uma cultura de auto-formação contínua. A dinâmica da tertúlia pedagógica é igual à da tertúlia literária (leia mais), a diferença está no gênero do texto lido. Enquanto na literária são lidos clássicos da literatura, na pedagógica os educadores leem obras de autores clássicos da Educação, sempre recorrendo às fontes originais.

 Planejar o tempo

Planejar bem o tempo para cada etapa é fundamental para o sucesso da Tertúlia, para isso é preciso reservar o tempo adequado para a leitura individual no planejamento da formação, sempre de acordo com as necessidades do grupo. Durante os encontros, é preciso ter bem estabelecido os tempos de fala e segui-los com o auxílio do moderador.

 Escolher obras clássicas

É necessário ter critérios para escolher quais livros e autores ler, compreendendo o tempo e o ritmo de trabalho na escola e dos profissionais envolvidos. Neste caderno produzido pelo Instituto Natura, sugerimos o estudo de autores que são extremamente relevantes para a história da Educação e, ao mesmo tempo, fundamentais no embasamento das Comunidades de Aprendizagem. Outra opção é acessar a seleção de textos científicos disponível na biblioteca do portal. Confira!

Para saber mais, assista à videoaula “Como organizar uma Tertúlia Pedagógica?”

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Por Bárbara Batista

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