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Tremembé sonha alto

21/11/2014

Tremembé sonha alto

Em Tremembé, SP, todas as escolas de Ensino Fundamental da rede municipal – 12 no total – decidiram transformar-se em Comunidades de Aprendizagem

    

O projeto Comunidade de Aprendizagem está a todo vapor na cidade de Tremembé, interior de São Paulo. Sua implementação faz parte das ações do Município para melhorar o nível de ensino e aprendizagem, visto que apresenta, atualmente, o pior IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da região.

“Nós vimos no projeto a oportunidade de mudar essa realidade. Todas as escolas já têm um plano estratégico, e agora o Comunidade só vem a agregar”, afirma Fernanda Morais Zanitti, coordenadora de projetos na Secretaria de Educação de Tremembé e responsável pelo acompanhamento da proposta em toda a rede.

No total, a rede municipal de Tremembé tem 18 escolas: 6 de Educação Infantil e 12 de Ensino Fundamental. Neste ano, todas as escolas de EF participaram da sensibilização e decidiram transformar-se em Comunidades de Aprendizagem. Quanto às escolas de EI, segundo Fernanda, o plano é começar as sensibilizações em 2015.

No último dia 6 de novembro, a reportagem do Portal esteve na cidade para ver de perto o andamento da proposta, e realizou entrevistas com Fernanda Morais e membros das equipes das escolas EMEF José Inocêncio Monteiro I e EMEF Profa. Amália Garcia Ribeiro Patto.

Fases de Transformação

Durante os meses de agosto e setembro de 2014, equipes das 12 escolas de ensino fundamental da rede municipal de Tremembé participaram das sessões de sensibilização, que contaram com altos índices de adesão e presença.  

Após a sensibilização, foi dado às escolas um prazo de duas semanas para a tomada de decisão. “Nós fomos ficando surpresos porque ao final todas as escolas chegaram à conclusão de que gostariam de fazer a transformação”, relata Fernanda.

A partir daí, começaram a ser agendadas as apresentações para a comunidade, que ocorreram durante o mês de outubro. Nesta fase, cada escola se organizou à sua maneira. “Teve todo tipo de horário e de planejamento. Mas a cada apresentação que chegávamos, encontrávamos um mural dos sonhos. Eles ficaram tão empolgados que entenderam que a apresentação pra comunidade já era o momento de sonhar. E acabou dando muito certo”, avalia Fernanda. “Tivemos os mais variados: árvore dos sonhos, universo dos sonhos, porta dos sonhos, quebra-cabeça dos sonhos, túnel dos sonhos... Ideias não faltaram! E os alunos e a comunidade participaram muito.”

     

Entre os sonhos, destacam-se os temas: famílias e escolas juntas; mais participação dos pais; intervalo mais recreativo; aulas de artes (dança, teatro, música), idiomas (inglês e espanhol), informática e natação; formação de familiares; melhorias de infraestrutura.

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“É incrível ver como as crianças tomam conta. Todos os murais estão expostos em lugares que facilmente poderiam ser estragados, mas estão lá, intactos. Cada dia um sonho é acrescentado,” diz Fernanda. Segundo ela, nas apresentações para a comunidade, muitos pais manifestaram sua vontade de participar como voluntários.

Agora, as escolas estão vivendo a fase de seleção de prioridades e planejamento, com a formação das primeiras comissões mistas. Há duas escolas que devem começar a implementar Atuações Educativas de êxito ainda este ano: EMEF José Inocêncio Monteiro I, com Grupos Interativos, e EMEF Profa. Amália Garcia Ribeiro Patto, com Grupos Interativos e Tertúlias Literárias.

Atuação da Secretaria Municipal de Educação

A SME de Tremembé está muito envolvida e ativa no acompanhamento às escolas – respaldando o trabalho das formadoras locais do Instituto Natura, Gilda Cassiano e Joana Grembecki – e na articulação entre elas, para fortalecer ações em rede. “Somos duas pessoas encarregadas do projeto na SME, eu e Daniela Renó. Mas todos na secretaria auxiliam, somos um grupo bem unido, todos sabem o que está acontecendo e se for necessário, nos ajudam”, conta Fernanda.  

Ela e a Secretária de Educação de Tremembé, Cristiana Berthoud, participaram em setembro da formação no CREA, em Barcelona, Espanha. Voltaram encantadas com os aprendizados e com as escolas que visitaram, onde puderam ver Atuações Educativas de Êxito na prática, dando ótimos resultados. “Lá vimos os pais e mães entrando na escola, cumprimentando a todos pelo nome, vimos essa liberdade que é o que queremos aqui. É magico ver isso, a comunidade tomando conta do que é dela, em lugar dos portões trancados”, entusiasma-se Fernanda.

Ela ressalta também a sinergia com outras ações educativas já realizadas, como o FAST (“Famílias e Escolas Juntas”, programa que também realizado em Tremembé com o apoio do Instituto Natura), e o programa Mais Educação, do Governo Federal. “Estes programas, que acontecem em todas as escolas, estão nos auxiliando muito, porque dentro deles tem a figura do voluntário. Muitos deles já querem ser voluntários no projeto CA. As crianças que participam também já têm outra mentalidade sobre o que elas podem fazer pela escola. Enfim, já existe uma cultura de participação e estamos conseguindo potencializá-la.”

Questionada sobre os desafios atuais, Fernanda destaca: “Nós esperávamos resistência dos professores, mas não houve. Quanto aos voluntários, não vejo como uma dificuldade, já que existe essa cultura, trazida por projetos como Mais Educação e FAST. Acho que o grande desafio é a estruturação das atividades: conseguir livros para as tertúlias, as cópias xerox das atividades para Grupos Interativos, enfim, recursos financeiros e materiais. Mas já estamos tentando parcerias com a comunidade, com comerciantes, para que isso não se torne uma dificuldade. E por último, vejo como um desafio a implementação na Educação Infantil, que devemos iniciar em 2015”.

Seus sonhos não acabam aqui

A EMEF José Inocêncio Monteiro I fica em um bairro distante do centro de Tremembé, onde não há sistema de saneamento básico nem alternativas de lazer para a população. A escola é, portanto, um dos únicos serviços públicos disponíveis.

Nesse cenário, é muito significativo ver, logo ao entrar na escola, o mural dos sonhos, povoado de desejos e propostas: “aulas de música, dança e informática”, “biblioteca melhor”, “quadra totalmente nova e equipada”, “comida boa com mais sucos e frutas”, “mais passeios”, “família mais engajada no aprendizado dos filhos”, “mais respeito e amor pelos professores”, “uma escola que acredite no potencial de cada um, com olhar humano”.

A equipe da escola está muito esperançosa. “Eu acredito bastante no projeto. Temos percebido bastante entusiasmo de parte dos professores e alunos, especialmente os do 8o e 9o ano, com esta mudança que já começou”, relata Valdir Marcolino, diretor da escola.

Pedro Luiz Dias, coordenador, afirma: “Esta comunidade é distante do centro, e tudo que vem pra somar é bem-vindo. Este projeto entrou num momento em que a gente está precisando dar uma chacoalhada nas coisas. A gente percebe que a comunidade está bastante aberta”.

A coordenadora de P1, Babiana Oliveira, completa: “Eu noto que os professores estão muito entusiasmados, principalmente com a tertúlia; botar a criançada pra ler é sempre um desafio. Está todo mundo trabalhando e apostando muito em trazer a comunidade pra escola, outro desafio. Eles estão sempre aí, mas mais para questões disciplinares, reunião. Efetivamente no estudo dos filhos, é novidade. Ainda temos pouca participação dos pais, mas os que estão participando estão bem envolvidos, já se candidataram a voluntários, então eu acho que tem tudo pra dar certo”.

 Valdir Marcolino e Fernanda Morais na José Inocêncio I

A primeira convocação para a formação da comissão mista contou com um público bem acima do esperado, de 38 pessoas. Uma vez formada, a comissão já começou algumas ações. Foi decidido que serão implementados Grupos Interativos de português e matemática para o 8o ano, ainda em 2014, e que em 2015 começarão as tertúlias.

Outra ação, idealizada por duas alunas participantes da comissão, é um belo exemplo do potencial criativo desencadeado pelo projeto. Como a escola estava às vésperas da Feira Cultural, a comissão debateu de que forma poderia aproveitar a ocasião. Joyce de Moura Neto, aluna do 8o ano, propôs que fosse feito um túnel logo na entrada, apresentado com a pergunta “Que escola vocês desejam?”, para que os visitantes da feira escrevessem e pendurassem seus sonhos ao longo do túnel. Todos aplaudiram a ideia e concordaram em fazer. Então outra aluna do mesmo ano, Isamara Pires dos Santos, sugeriu que ao final do túnel fosse colocada a frase: “Não é porque acabou o túnel que acabam os seus sonhos”. Foi um sucesso.

 Joyce e Isamara, alunas do 8o ano

“Foi muito legal, porque aí você já sai querendo sonhar mais alto ainda”, observa Joyce. “Foi uma ideia totalmente espontânea das alunas, que enriqueceu muito”, diz Valdir. “Isto já é um indicio de transformação e um ganho para o aluno, poder criar e ter suas ideias ouvidas e postas em prática. Para nós, professores, participar dessa transformação é o interessante. Nós pegamos o aluno de um jeito e queremos ver a evolução dele. Então iniciar um projeto e ver tudo o que acontece, toda a evolução e melhoria para os alunos, é o ganho maior pra gente. Esse é nosso ideal: ver 100% dos alunos aprendendo”, conclui o diretor da escola.

Muitas estrelas no universo

Localizada no centro de Tremembé, em frente a uma praça, a EMEF Profa. Amália Garcia Ribeiro Patto tem uma equipe altamente entusiasmada e comprometida com o projeto.

A diretora Josiane Simões fala com brilho nos olhos sobre sua visita, há alguns meses, às escolas piloto do Rio de Janeiro. “Quando a Fernanda me convidou a conhecer duas escolas no Rio de Janeiro, eu fui e voltei completamente encantada. Porque lá pude ver na prática. Conversei com professores, alunos, voluntários, participei das atividades, e fiquei impressionada com os fatos, com os resultados visíveis, com o entusiasmo das pessoas. Meu encantamento é porque é uma estratégia. São meios, ferramentas para atingir muitas coisas que temos vontade de atingir. Por exemplo, trazer a comunidade pra dentro da escola, que é uma coisa que a gente tenta o tempo inteiro. O projeto traz meios para isso. Eu voltei babando, dizendo: ‘Eu quero isso aqui!’”

“O projeto é a nossa cara. Quando ele nos foi apresentado nós nos olhávamos e dizíamos: ‘Amália, Amália!’ E a Josi também contagiou todo mundo”, completa Dinah, professora de Geografia. Ela se diz muito animada. “Me chamou bastante a atenção que as intervenções resolvem os nossos problemas dentro de sala de aula, que é o fim de tudo: o aprendizado. Isso foi o que me pescou. E eu vi que as intervenções são palpáveis, são possíveis”, observa.

Para Neander, coordenador de Fundamental II, tudo direcionou a escola ao projeto Comunidade de Aprendizagem. “Começou pela visita da Josi ao Rio, depois teve a apresentação do projeto, então nós começamos a procurar materiais, e outros materiais começaram a aparecer, como a série de reportagens na revista ‘Carta na Escola’. No atual contexto da rede, de acabarmos de ter um resultado ruim, de verificar que precisamos fazer algo, acho que CA está vindo como a estratégia de que estávamos precisando”, afirma.

Simone, coordenadora de Fundamental I, agrega: “O que mais chamou a atenção dos meus professores foram os Grupos Interativos. Essa estratégia tem uma peça fundamental que é o adulto, a pessoa em cada grupo. Nós não tínhamos isso antes. E é algo pesquisado, comprovado cientificamente. Nós queremos trazê-los para o 4o ano, para começar”.

Marcelo, coordenador de Educação Integral e Mais Educação da escola, destaca as comissões mistas: “Achamos muito bacana a formação de uma comissão mista, que consegue envolver vários segmentos de dentro e de fora da escola, porque o sentido de comunidade é isso. A gente vê que isso é possível, trazer todo mundo com o mesmo objetivo, e isso dá legitimidade ao trabalho”.

 Neander, Josiane e Simone, da EMEF Amália Patto

Quanto ao processo de transformação, contam que estão preparando tudo com muito carinho, pensando cada passo. Segundo a equipe, a escola tem um grupo muito unido e os professores estão cativados com o projeto, dos mais antigos aos mais novos. Assim, a decisão de aderir foi muito natural. O grêmio de alunos da escola, que é muito ativo, também está bem envolvido.

Com relação à mobilização da comunidade Josiane diz que é “trabalho de formiguinha”, mas está confiante. No dia da apresentação para a comunidade estiveram presentes comerciantes da região, um vereador, um líder comunitário, pais, alunos do grêmio. “A comunidade está aprendendo a lidar com o processo democrático, a entender que a opinião deles vale. Por exemplo, neste processo, eles me mostraram que não tem sinalização de trânsito adequada em volta da escola. Aí eu falei: ‘Nossa é mesmo, está faltando’. Então fizemos um requerimento. Com isso, eles já começam a perceber que a voz deles realmente pode ser ouvida”, relata a diretora.

Nesse mesmo dia, a escola começou a sonhar. Foram distribuídas estrelas para que os participantes escrevessem e colassem no universo dos sonhos. Nele, há sonhos de todos tipos: “uma escola que não mude carteiras e lousas, mas que mude a mentalidade das pessoas”, “mais amor e respeito”, “laboratório e sala de informática”, “aulas de outras línguas (espanhol)”, “um teatro e um cinema”... E a escola continua sonhando.

   

Todos estão sendo convidados a sonhar: alunos de todas as idades, funcionários da limpeza, da cozinha, etc. “Alunos que não estavam na reunião do aceite da comunidade têm pedido as estrelas para registrarem os sonhos deles”, conta Simone. “Isso é muito legal.”

“Nosso painel dos sonhos é vivo, a gente espera que tenha muito mais estrelas no nosso universo”, completa Josiane.

Além de sonhar, a equipe está empenhada em começar a implementação de AEEs: Tertúlias Dialógicas e Grupos Interativos, para 4o e 8o anos. Assim, estão convocando voluntários, entre eles funcionários da escola e alunos do ensino médio da escola estadual vizinha, onde há também ex alunos. E discutindo estratégias para obter os livros para tertúlias, o que sempre é um desafio.

“É legal que agora estamos num momento de prática, quando surgem as dúvidas e busca de soluções. Em geral, sinto que estamos no momento de arar a terra para semear em um lugar fértil”, conclui Josiane com um sorriso. 

Por Maria Julia Bottai

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