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Tertúlias Dialógicas na Educação Infantil

19/12/2017

Tertúlias Dialógicas na Educação Infantil

Conforme dissemos na reportagem sobre Grupos Interativos nas turmas de Educação Infantil, muitas escolas têm incluído no planejamento essa Atuação Educativa de Êxito (AEE) e as Tertúlias Dialógicas com as crianças de até 5 anos. Outras instituições desejam colocar essas propostas na rotina, mas vêm dificuldades para torná-las uma prática. “A Tertúlia precisa ser feita muitas vezes para que alunos e professores se apropriem do processo. É comum professores avaliarem que a prática não é adequada aos pequenos e desistirem na primeira vez que fazem. Mas a Tertúlia, assim como todas as outras estratégias de trabalho, precisam de tempo para que sejam incorporadas pelos alunos, pais e professores”, afirma Priscila Collet, formadora de Comunidade de Aprendizagem. Pensando nisso, destacamos abaixo as experiências de três educadoras e elaboramos um quadro com dicas de como realizar essa AEE. Para aprofundar seus conhecimentos, participe também do curso a distância gratuito disponível aqui no portal. 

 

O que são Tertúlias Dialógicas

A Tertúlia Dialógica foi identificada pela pesquisa Includ-ed como sendo eficiente para aumentar o desempenho acadêmico e melhorar a convivência e as atitudes solidárias nas escolas observadas. Nela, os participantes compartilham suas reflexões e apontam o que chamou atenção no contato com obras literárias clássicas, obras de arte ou músicas. A seguir, veja de que modo duas brasileiras e uma colombiana colocaram as Tertúlias na rotina.

 

Na Chapada Diamantina (BA), portfólio e conversas profundas nas Tertúlias

As Tertúlias Pedagógicas e Literárias têm espaço garantido na rotina do Centro Integrado de Educação Infantil Leolino José Fernandes, em Iraquara (BA), onde trabalha a diretora Cinelândia Alves dos Santos.

Com as crianças de 3 a 6 anos, os livros clássicos são a base das conversas a cada 15 dias. Poemas e contos são abordados com as turmas, que levam os textos para casa e, com o apoio dos pais, são lidos e analisados. Segundo Priscila Collet, formadora de Comunidade de Aprendizagem, uma boa forma de os educadores comunicarem aos familiares a proposta das Tertúlias é dizer que após lerem para as crianças podem colaborar na identificação dos principais trechos e no que querem comentar sobre eles. “Podem ser pontos positivos ou negativos, mas sempre um destaque. Os pais podem dar o exemplo, apontando o que, para eles, chamou mais a atenção”, diz (leia dicas de como realizar o trabalho com os pequenos no quadro abaixo).

A diretora já vê os resultados das Tertúlias: conta que as crianças já esperam a vez do colega, prestam atenção no que os demais dizem, notam as causas e consequências dos fatos das histórias, marcam os trechos das obras lidas com facilidade. “Quando nossos pequenos forem para o Ensino Fundamental, já terão internalizado comportamentos de respeito e interação com os colegas”.

Na escola baiana, outro ponto forte: as Tertúlias realizadas ao longo do ano são registradas em um portfólio. Em uma pasta há o cronograma, o planejamento da rotina, os textos utilizados, as fotos e as análises da diretora e da coordenadora. E a diretora afirma: “Acompanhamos todo o percurso! Refletimos sobre os pontos positivos e validamos as estratégias. Verificamos os pontos negativos e procuramos melhorá-los. Percebemos que quanto mais fazemos essas AEE, mais desafios ou conquistas surgem”.

     

Durante as reuniões de professores, Cinelândia nos conta que são lidos títulos de referência em Educação, como dos autores Wallon e Paulo Freire, e as obras literárias são objeto de discussão nos encontros com os pais e nas reuniões de planejamento pedagógico. “Acreditamos que os professores fazem Tertúlias de qualidade se também participam dessas práticas com seus pares”.

 

Na Grande São Paulo, música, obra de arte e livros geram discussões

Eliane Maria da Silva, assessora pedagógica e diretora da EMEB Ester Catarine Lozano, em Cajamar (SP), conta que no início do ano foi feita uma reunião com os educadores e a comunidade para se decidir quais Atuações Educativas de Êxito realizar. E então as Tertúlias Literárias, Musicais e Artísticas começaram a ser feitas com as turmas de crianças de 4 e 5 anos. As Tertúlias Literárias já contaram até com a presença de algumas mães de crianças, que também falaram sobre suas sensações com o texto, sendo uma referência possível para os pequenos participantes e encorajando a fala deles. Nas Tertúlias Artísticas, as professoras projetam na parede a imagem da obra analisada, permitindo que todos tenham como apreciá-la. “A orientação é que as crianças não tenham a intenção de interpretar a mensagem que os autores quiseram deixar, mas que vejam quais as sensações ficaram para si, quais sentimentos foram despertados”, disse Eliane. Nas Tertúlias Musicais, as educadoras se preocupam em criar um ambiente agradável para a turma ouvir o som, diminuindo a luz da sala e sugerindo que as crianças deitem e fechem os olhos para prestar mais atenção.

  

Eliane conta o impacto que as Tertúlias têm causado com educadores e equipe gestora: “Queremos aprimorar as práticas ainda mais para resolver os desafios que aparecem. Mas comemoramos muitas conquistas, entre elas a possibilidade de conhecer o sentimento e a experiência da criança, porque nem sempre temos contato com isso nas propostas rotineiras”. E, relação às atitudes das crianças, percebem muitos avanços nas turmas. “Até mesmo os alunos mais agitados passaram a ouvir os outros e até a comentar o que foi dito por outro colega, ligando uma fala à outra. Os que eram mais tímidos passaram a se expor, sem receio do que é certo ou errado”. 

Lucas Botelho, formador de Comunidade de Aprendizagem, indica ainda outra estratégia possível para envolvimento da comunidade com base na estratégia de "padrinhos de leituras" utilizada na Escola Vereador Kiyoshi Tanaka, em São Bernardo do Campo (SP): "Uma possibilidade é indicar voluntários que possam ler para as crianças na própria escola, sejam eles estudantes mais velhos, familiares ou pessoas da comunidade. Para isso, as crianças podem ser separadas em pequenos grupos e o adulto lê para cada turminha. Em seguida, todos discutem em conjunto", diz.

 

Na Colômbia, espaços variados para realizar as discussões

A professora colombiana Paula Andrea Meneses, da Institucion Repúlica do Panamá, em Cali, já nos contou sua experiência na reportagem sobre Grupos Interativos na Educação Infantil (conheça o trabalho da educadora neste texto). Quando realiza Tertúlias Literárias, a educadora que leciona para crianças de 4 a 6 anos propõe a leitura do conto Aladim e a Lâmpada Maravilhosa. Para isso, indica a página a ser lida em casa por um adulto e orienta que as crianças notem quais aspectos gostariam de comentar com os colegas. No momento da discussão em sala, relê a página escolhida e anota quem gostaria de compartilhar suas opiniões. Os pequenos indicam trechos de destaque e falam sobre eles.“Destaco como resultado alcançado o compromisso e a responsabilidade das crianças frente à leitura que se faz em casa, o interesse por participar da aula e os processos cognitivos envolvidos. Eles desenvolvem processos comunicativos e de convivência escolar”. Ela também se preocupa em criar espaços variados para realizar as Tertúlias, decidindo com as crianças quais locais eleger, sejam eles ao ar livre ou em outros ambientes da escola.  

  

 

Acompanhe as dicas a seguir e aprimore a aprendizagem e a convivência desde os primeiros anos da Educação Infantil:

  1. Escolha obras clássicas que sejam mais adequadas para a faixa etária de suas crianças. Mas não menospreze a capacidade deles, mesmo que pequenos, de discutir e ter percepções das obras analisadas. Se necessário, ofereça textos, músicas ou obras de arte que considere mais complexos.
  2. No momento das discussões sobre os objetos de análise, procure fazer com que as conversas sejam mais aprofundadas. Se as crianças apenas dizem que gostaram ou não dos trechos destacados, que tal mudar a forma de comunicar a eles e aos pais qual a análise deve ser feita com as obras? Envie mensagens ou até proponha uma reunião para conversar sobre isso, indicando que é importante apontarem o que mais chamou atenção na obra e o porquê.
  3. Para que o professor seja um bom mediador nas Tertúlias, é interessante que tenha experiência como participante das discussões, seja realizando a AEE com colegas ou com outras turmas. Também é interessante que o educador promova Tertúlias Pedagógicas, quando a discussão é sobre uma obra formativa.
  4. Se o mediador da leitura está inseguro com os procedimentos a tomar, colabore! Indique que nas primeiras Tertúlias outro educador ou membro da equipe gestora esteja presente para colaborar no que dizer e como organizar a turma.
  5. Compartilhe entre os colegas de escola quais obras estão sendo trabalhadas, os desafios e avanços. Aproveite os comentários de um para melhorar as ações de outros.
  6. Participe do curso a distância de Comunidade de Aprendizagem sobre Tertúlias Dialógicas e leia os textos sobre essa AEE disponíveis na Biblioteca. Veja quais são as práticas que devem ser realizadas – procure segui-las fielmente, já que adaptá-las pode não levar aos resultados esperados.
  7. A Tertúlia Dialógica mais comum é a Literária. Mas não deixe de explorar a audiovisual, a musical ou a artística, que possibilitam outras formas de trabalho e discussão e exigem poucos recursos da escola.

Por Beatriz Santomauro

 

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