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EM Epitácio Pessoa, uma Comunidade de Aprendizagem no Andaraí

05/01/2015

EM Epitácio Pessoa, uma Comunidade de Aprendizagem no Andaraí

A Escola Municipal Epitácio Pessoa, localizada no bairro do Andaraí, Rio de Janeiro, RJ, foi uma das três escolas piloto da implementação do projeto Comunidade de Aprendizagem no Brasil, iniciada em julho de 2013.

Passados 18 meses, a escola é hoje uma verdadeira Comunidade de Aprendizagem. Alunos, professores, equipe gestora e voluntários são atuantes e comprometidos com a melhora constante dos resultados de aprendizagem e da convivência. Grupos InterativosTertúlias DialógicasBiblioteca Tutorada e Participação Educativa da Comunidade são Atuações Educativas de Êxito incorporadas ao dia a dia escolar e valorizadas por todos.

Voluntárias e alunas participam de formação sobre Tertúlias Dialógicas Literárias  Prof. Maria Luiza e Matheus, ex-aluno voluntário, participam de formação sobre Tertúlias Dialógicas Literárias

“As atividades foram sensacionais, fizeram com que nós professores crescêssemos como profissionais, e conferiram aos nossos alunos uma autonomia que acho que nem eles sabiam que tinham”, afirma Maria Luiza de Azevedo, professora de Língua Portuguesa.

Marly Cardoso, diretora da escola, e Carla Aida, diretora-adjunta, destacam a participação da comunidade. "Este projeto realizou nosso sonho, que era a comunidade dentro da escola. Não adianta fazer uma escola toda arrumada, toda bonita, onde o pai, o responsável, não possa participar, trazer a sua experiência e sua fala. Isso não tem sentido. Uma escola de altos muros e grades não faz a minha cabeça como educadora”, afirma Marly. 

Carla Aida, diretora-adjunta, e Marly Cardoso, diretora da EM Epitácio Pessoa

“Eu fico muito feliz quando eu vejo vocês entrando e saindo da escola”, diz Marly dirigindo-se a um grupo de voluntárias. Entre elas está Elisângela Sena, mãe de três alunas, que agradece. “A oportunidade de estarmos aqui, dentro da escola, foi um divisor de águas na vida de muitas pessoas,” assegura. A escola conta com um grupo atuante de 14 voluntários, incluindo familiares, membros da comunidade, Consultoras Natura, funcionários e um ex-aluno.

Os alunos também avaliam positivamente as mudanças. “Até então ninguém da comunidade descia pra vir na escola. O projeto mudou isso, aproximou a comunidade à escola. Isso é ótimo, não só pra escola, mas também pra comunidade. Ajuda a pensar junto”, considera Rosana dos Santos, aluna do 9o ano. Sua colega de turma, Adriane de Oliveira, valoriza a quebra da rotina. “Antes era cansativo, a mesma coisa todo dia, só o professor falando e a gente anotando no caderno. Acho que melhorou bastante, porque não é aquela coisa entediante de sempre.”

Alunos do 9o ano (da esq. para a direita): Dayvid Moreira, Rosana dos Santos, Adriane de Oliveira, Lorena de Lima, Luiza Trindade, Luiza Cavalcante, Demerson da Costa​

As Tertúlias Literárias, segundo os alunos, são “ótimas, perfeitas”. “As tertúlias permitem que cada um exponha seu modo de pensar. A gente começa a conhecer o que as outras pessoas pensam, os professores, os voluntários. Fica muito mais fácil de dialogar”, observa Heloísa Ferreira da Silva, do 8o ano. Sua colega Andreina Silva concorda. “Depois que um fala, todos se abrem. Inclusive gente que você nunca achou que ia falar”, relata.

A Biblioteca Tutorada também foi aprovada. “Foi algo novo. A gente nunca podia pegar um livro emprestado, não tinha esse ambiente que é tão legal, que você pode sentar, jogar, ler, conversar. Foi algo muito interessante que trouxeram pra cá”, diz Luana Fernandes, aluna do 8o ano que atua como voluntária tutora na biblioteca, junto à sua colega Larissa Mello. “A maior parte dos tutores são alunos, e fica bem legal porque a gente acaba fazendo amizade com essas outras pessoas”, afirma Larissa.

Alunos do 8o ano (da esq. para a direita): João Vitor Justino, Gabriel Finster, João Pedro Batista, Luana Fernandes, Larissa Mello, ​Heloisa Ferreira da Silva, Andreina Silva

Quanto aos Grupos Interativos, os alunos destacam os benefícios de “misturar" e "separar as amizades” – um dos princípios desta atuação é dividir os alunos da forma mais heterogênea possível. “É melhor porque a gente foca mais”, avalia João Pedro Batista, do 8o ano. “Antes, era um grupo focando e outros quatro na baderna, uns copiavam dos outros. Daí misturou os ‘focados’ com o ‘grupo do fundão’. Isso melhorou muito, interagir com outros, não só com os amigos.”

Luana aponta outra vantagem. “O aluno tem mais intimidade pra dizer que não entendeu. Às vezes, quando é só o professor dando aula, dá vergonha. Nos grupos começamos a ajudar uns aos outros, e a aprender uns com os outros”, diz. “Os Grupos Interativos fizeram muita diferença. Todo mundo começou a focar mais e achar a matéria mais interessante. Muitos alunos melhoraram suas notas”, relata.

Aluno revelação

Um desses alunos é Gabriel Finster, do 8o ano. “No começo do ano eu não fazia nada, realmente nada, não queria nada com a vida. Quando começaram os Grupos Interativos eu achei bacana, e comecei a participar muito mais. Foi algo novo, diferente, eu gostei. E as minhas notas melhoraram muito”, conta. “Melhoraram muito mesmo, tipo de 2 a 10!”, entusiasma-se seu colega João Pedro. “Hoje ele é o melhor aluno em Ciências”, completa.

Para a professora Maria Luiza, Gabriel é “aluno revelação”. “Eu o conheço há três anos. Ele era muito irresponsável, mas a gente sabia que ele podia mais. Até começar a participar dos Grupos Interativos. Dali pra frente foi assim, um crescimento incrível.”

Gabriel atribui sua significativa melhora ao estímulo à participação, trazido pelo projeto. “Eu até já repeti de ano. Era por preguiça mesmo. Com o projeto é diferente. Se todo mundo faz, eu não vou ficar com preguiça, ficar brincando, daí eu fui lá e comecei a fazer também. Agora, nós já estudamos tanto, tanto que já acabamos a matéria do 8o ano, já estamos fazendo a do 9ano”, entusiasma-se.

Funcionária universitária

Luciene Santos, 51, funcionária residente da escola há 18 anos, também vive uma história de transformação pessoal impulsada pelo projeto. Hoje ela é membro da comissão mista e voluntária das tertúlias, grupos interativos, biblioteca tutorada e do projeto “Mais Educação”. E está realizando um grande sonho: é aluna do 1o semestre de pedagogia na Universidade Estácio, na modalidade à distância.  

Luciene Santos, 51, funcionária residente e voluntária

Antes, sua vida era muito diferente. “Eu era séria, fechada, distante dos alunos”, conta. “A Luciene era resmungona, chata, emburrada, amarga. Hoje é uma pessoa aberta ao mundo, e universitária! Ela viu a oportunidade e transformou a vida dela. É um exemplo de perseverança”, considera Marly. Luciene expressa sua gratidão. “A Comunidade de Aprendizagem transformou não só a escola mas a minha vida. Eu sonhei mesmo junto com a escola. E estou realizando meus sonhos, graças ao projeto, à Dona Marly que me deu a oportunidade de mostrar o quanto eu posso, me deu forças, nunca me deixou desistir”, emociona-se. 

Ela fala com entusiasmo do trabalho da comissão mista de gestão, da qual participam, além dela própria, uma professora, três alunas, mães e uma consultora Natura voluntária. “Nos reunimos uma vez por mês para fazer um balanço das atividades e da aprendizagem dos alunos, pensar em novas ideias para chamar os voluntários, sugestões de melhorias, e claro, discutir a pauta dos sonhos, quais já foram feitos, os que falta fazer.”

Muitos sonhos já foram realizados: mais passeios educativos, reforma da quadra, mais eletivas, aulas extras no laboratório, festa cultural, mais verde na escola. E há muitos em pauta: rampas para deficientes, eletivas todos os dias, telhado e refletor na quadra, aula de informática e culinária.

Jardim, construído por alunos, professores e voluntários para realizar o sonho de uma escola com mais verde

“A escola mudou muito. Os alunos têm mais autonomia. Eles planejam, decidem. Estão mais soltos, mais amigos, mais camaradas, como eles dizem. Ficaram também mais responsáveis em suas atividades. A convivência melhorou cem por cento”, avalia Luciene. 

Para o futuro, ela diz que os sonhos são muitos. “Cheguei aqui onde estou e pretendo ir mais pra frente. Quem sabe futuramente eu não estarei no corpo docente da escola?” pergunta esperançosa. “Espero que a sucessora da Marly [em 2015, a escola terá nova direção] abrace a causa como nós, que venha com garra e vontade de continuar este trabalho. As crianças esperam isso da escola também. Espero que 2015 seja tão bom quanto foi 2014”, conclui Luciene.

Os alunos do 8o ano, que passarão ao 9o, se dizem preparados para acolher aos novos e ensinar a eles tudo sobre a Comunidade de Aprendizagem e as mudanças que esta trouxe à escola.

Já os do 9o ano, que estão se despedindo, dizem sentir uma mistura de tristeza e felicidade. Tristeza pois sentirão saudades da escola e dos amigos; felicidade por passar a um novo ciclo. Muitos estão pensando no que vão estudar na faculdade: direito, ciências da tecnologia, gastronomia, fotografia. E uma coisa afirmam categoricamente: aprenderam muito na Epitácio.

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Veja aqui vídeo com depoimento de Luciene Santos. 

Texto e fotos por Maria Julia Bottai

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